Convencionalismos sobre a felicidade conjugal, direitos sobre a liberdade sexual e outros conceitos pontuam e norteiam os fatores responsáveis pela boa convivência entre homens e mulheres unidos estavelmente. A verdade é que cada um é um e dentro de cada universo humano encontramos um manancial de desejos ocultos, obscurecidos por imposições sociais castradoras e divergentes do objeto de prazer e felicidade que cada um carrega em si. Este pode ser o gatilho que dispara a arma da infidelidade, que atira sem direção e, muitas vezes, acerta o próprio atirador.
A infidelidade, contrariando o que se pensa, não destrói somente a relação amorosa. É, antes de tudo, uma constatação de que a pessoa que mente e engana passa por algum conflito íntimo e pode estar precisando muito mais de auxílio psicológico que de uma aventura vazia e sem sentido. Enganar-se a si mesmo não é saudável. Buscar felicidade na fantasia de um novo amante pode aliviar sintomas de descontentamento, que, na maioria das vezes, é com o próprio ser mais do que com o cônjuge. Por exemplo, insegurança ou baixa autoestima perante o parceiro. Como a maior parte das soluções “fáceis” na vida, a infidelidade não resolve os verdadeiros problemas que causam essas tensões. Só eliminam os sintomas e não os males que o provocaram, que são singulares e que cabem a cada um e a cada casal.
Tem gente que não consegue se relacionar com a beleza ou com a inteligência da pessoa que escolheu para si. O que, no início, era ponto de admiração, virou ponto de humilhação. Há aqueles que não lidam bem com o parceiro bem sucedido, extrovertido e de bem com a vida. Tem outros que não têm paciência com os limitados racionalmente, emocionalmente ou financeiramente. Outros descobrem a feiura da pessoa que escolheu para viver tempos mais tarde e acham que merecem alguém mais belo. Há aqueles que se sentem bons demais, poderosos demais para conviver com aquele que não é tanto assim e, por isso, buscam alguém à altura ou que pelo menos os enalteçam, mesmo que por alguns trocados. Tem aqueles carentes demais, abandonados demais, amados demais.
Tem gente que não consegue corresponder à performance sexual do outro ou não vê nenhum interesse, no outro, de corresponder a sua. Para os homens, está bastando ser homem. Pode ser careca, barrigudo, pobre, grosseiro, sem cultura, baixinho, velho, impotente, casado, chato, bêbado, malandro... Sempre há mulher querendo. Para as mulheres, trair está um pouco mais difícil porque as estatísticas apontam um número muito alto de mulheres para cada homem em várias partes do planeta. Ainda assim, tem muita mulher dando um jeitinho de cair nessa armadilha. É de cada um, gente. E o que define se o recurso é a traição pode passar pelo viés da retidão. Ou será que não? Será somente a insustentável e tão permitida leveza do ser? A oportunidade faz o ladrão, já dizia meu avô. Nossa, como é difícil classificar o comportamento humano sob este aspecto, não é mesmo?
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