16 de setembro de 2015

Quem eu sou?



Eu sou melodia, sou valsa, sou emoções, sou mar revolto bramindo com fúria e sou também a prata das águas que as estrelas fazem brilhar em noites de veludo. Tenho o encanto das encantadoras e a frieza dos desiludidos. Sou valsa, sou tango, sou calor e sou gelo. Sou verdadeira, incapaz de ser falsa, mas inteligente para já saber que a palavra é de prata quando o silêncio é de ouro. Sou melodia, sou valsa, sou emoções desavindas ou controladas.

Sou uma sonhadora, uma tonta e, uma querida ou inimiga passageira. Não me dou com o mal e sempre pedi ajuda para quem me traíu. Já fui traidíssima e amada como só os poetas sabem amar. Em delírio, em paixão, em loucura. Pisco os olhos às estrelas, afago as nuvens, dou o braço ao vento e falo com a infinidade dos Oceanos mas não sou marada. Sou filha deles!

Sou um sono e muitos sonhos onde já me aconteceu de tudo Já estive no Paraíso, já acompanhei Jesus, já sonhei com pessoas de quem não gosto mesmo nada e nunca conheci pessoalmente. Já afaguei algumas e já desanquei noutras. Sou assim: doce e amarga, tonta e certinha. Rodopio, danço, sorrio à Vida, às flores, aos animais, às pedras (“eu hei-de amar uma pedra…”) e… sorrio para ti, meu amor.
(Autora: Maria Elvira Bento)
(foto:Ken Browar/Deborah Ory)

19 de junho de 2015

Abri as asas e provoquei a vida e voei.


O tempo parou enquanto, perdida, procurava agarrar o chão que fugia. 
O vento, indiferente, continuava a pintar vida nas folhas que rodopiavam e caíam. 
Abri as asas, provoquei a vida e voei. 
Perdi-me de admiração em admiração ao olhar nos olhos das pessoas. 
Neles, há tantos sortilégios, encantos e desencantos. Há tanta vida por contar. 
Enquanto, confusa, sentia que não conseguia agarrar o momento, lembrei-me que o meu coração precisava de bater e, aí, confessei que o amava. 
Ele ouviu-me e, readquiriu o entusiasmo perdido. 
Tinha criado raízes desmotivadoras mas o vento, nas minhas asas, voltou a deixar-me em harmonia. E eu abri-as à vida. Imperfeita, na sua perfeição.

(Maria Elvira Bento)


29 de maio de 2015

Mudanças fazem milagres


Certa vez, participei  de  um evento sobre  o Dia  da Mulher. Era  um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.   E por falar em  idade, lá  pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela,respondi. Foi um momento inesquecível… A plateia inteira fez um ‘oooohh’ de descrédito.   Aí fiquei pensando: ‘pô,  estou neste auditório  há quase uma hora exibindo minha inteligência,  e a  única  coisa que provocou uma reação  calorosa  da mulherada foi  o fato de eu não  aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado ‘juventude eterna’. Estão todos em busca da reversão do tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. Há outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada.
A fonte da juventude chama-se “mudança”.
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos. Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho… Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.

Olhe-se no espelho…

As pessoas são responsáveis e inocentes em relação ao que acontece com elas, sendo autoras de boa parte de suas escolhas e omissões.”
Lya Luft